A organização britânica Global Witness publicou em 16 de setembro de 2026 seu relatório anual sobre pessoas assassinadas por defender a terra e o meio ambiente. O documento — Collective Power: Land and Environmental Defenders Annual Report 2026 — traz um dado que interessa diretamente a quem opera no agro, na mineração e em cadeias de suprimento no Brasil: 26 defensores foram mortos no país em 2025, o dobro do registrado no ano anterior.
Com esse número, o Brasil se tornou o segundo país mais letal do mundo para defensores ambientais, atrás apenas da Colômbia, que registrou 39 mortes. Juntos, os dois países concentraram 52% de todos os assassinatos documentados no planeta.
Os números do relatório
- 124 defensores da terra e do meio ambiente foram mortos no mundo em 2025.
- 26 no Brasil (contra 13 em 2024) — segundo lugar global.
- 39 na Colômbia, país no topo da lista pelo quarto ano consecutivo.
- Ao menos 44 vítimas eram indígenas, incluindo 7 integrantes de guardas indígenas — grupos comunitários de vigilância territorial.
- 2.375 mortes acumuladas desde 2012, quando a organização começou a monitorar o tema.
Na América Latina, o perfil das vítimas se concentra em dois grupos: cerca de 40% eram trabalhadores e agricultores e 36% eram indígenas — populações que ocupam a linha de frente do conflito por terra.
Onde as mortes se concentram no Brasil
A cobertura do relatório aponta Rondônia e Pará como os estados mais críticos, onde comunidades tradicionais sofrem pressão do avanço das fronteiras agrícola e extrativa. A causa predominante dos casos brasileiros é a disputa por terra — tensão histórica entre povos indígenas, posseiros, agricultores familiares e grandes proprietários.
Some-se a isso a expansão do garimpo ilegal. Análise do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) citada na repercussão do relatório indica que a área ocupada por garimpo cresceu 562% entre 2016 e 2024, frequentemente com apoio de facções criminosas em terras indígenas.
Impunidade como combustível
Um ponto recorrente nas análises é a baixíssima responsabilização dos mandantes. Carlos Lima, da Comissão Pastoral da Terra, resumiu o efeito prático dessa lacuna: "pode-se matar as pessoas, porque há certeza de que ficará impune. É quase uma licença para matar".
A própria Global Witness reconhece que os números são provavelmente subestimados — muitos casos em regiões remotas não chegam a ser documentados, e ameaças, criminalização e deslocamento forçado não entram na contagem de mortes.
O que isso muda para empresas
Pode parecer um tema distante do dia a dia corporativo, mas não é. Violência fundiária é, na prática, um indicador de risco na cadeia de valor — e vem sendo tratada assim por reguladores, investidores e compradores internacionais:
- Due diligence de fornecedores. Insumos agrícolas, minerais e madeira vindos de áreas com conflito fundiário expõem a empresa a risco jurídico, reputacional e de contrato — sobretudo em exportações para mercados com exigências de rastreabilidade de origem.
- Rastreabilidade de origem. Saber exatamente de onde vem cada carga exige base cartográfica confiável: georreferenciamento, CAR e checagem de sobreposição com terras indígenas, unidades de conservação e embargos.
- Reporte climático e social. Frameworks como GRI e IFRS S1/S2 pedem divulgação de riscos sociais relevantes — e conflito por terra na cadeia é material.
- O "S" do ESG deixou de ser o pilar frágil. Direitos humanos, consulta a comunidades e gestão de conflitos fundiários passaram a ser cobrados com o mesmo rigor dos indicadores ambientais.
Como reduzir esse risco na prática
Não existe atalho, mas existe método. O caminho começa por saber onde a empresa está pisando: mapear a malha fundiária dos fornecedores, verificar regularidade documental e cruzar essas informações com bases públicas de embargos, terras indígenas e áreas protegidas.
É exatamente esse trabalho — geoprocessamento e georreferenciamento, regularização fundiária e ambiental, e estruturação de programas de ESG com indicadores auditáveis — que a BioEmerge executa para empresas, produtores e consultorias parceiras. Conformidade documental não resolve um conflito social, mas é a primeira barreira contra participar dele sem saber.
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Fontes e referências
- Global Witness — "Collective Power: Land and Environmental Defenders Annual Report 2026"Global Witness · 16 set. 2026
- g1 — "Brasil no relatório mundial de mortes em defesa de terras"Globo · 16 set. 2026
- Correio Braziliense — "Mortes de ativistas ambientais dobram; Brasil é 2º país mais letal"Correio Braziliense
- Brasil de Fato — "Mortes de ambientalistas dobram em 2025 e geógrafo comenta: 'assassinato seletivo'"Brasil de Fato
- Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) — dado de expansão da área de garimpo entre 2016 e 2024 IPAM
- Fotos da reportagem original: Fernanda Frazão / Global Witness e Divulgação/PF crédito editorial
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