Duas aves brasileiras entraram na lista das mais barulhentas do planeta. Segundo estudo noticiado pelo G1, os cantos da araponga-de-garganta-nua e da seriema ultrapassaram 120 decibéis de pico — volume superior ao de uma motosserra ou de uma britadeira em operação.
Para dimensionar: 120 dB é o patamar em que o som deixa de ser apenas alto e passa a ser fisicamente desconfortável para o ouvido humano. E estamos falando de animais que pesam uma fração do que pesa qualquer uma dessas máquinas.
O decibel é logarítmico: cada 10 dB a mais representa dez vezes mais energia sonora. A diferença entre 100 e 120 dB não é de 20%, é de cem vezes em intensidade. É por isso que poucos decibéis mudam tanto a percepção.
Passe o mouse (ou use Tab) sobre cada linha para ver o detalhamento.
Por que um bicho pequeno grita tanto
Aves não têm laringe como a nossa. Elas vocalizam por meio da siringe, órgão localizado na base da traqueia, onde ela se divide para os dois pulmões. Essa arquitetura permite controle fino sobre a coluna de ar — e, em algumas espécies, eficiência acústica muito superior à do aparelho vocal dos mamíferos.
O volume extremo costuma vir acompanhado de adaptações no corpo: musculatura abdominal reforçada, ossos e sacos aéreos que funcionam como caixa de ressonância e, em geral, cantos muito curtos. Manter um som desses exige energia demais para durar mais que instantes.
Existe um custo nisso
Na araponga, o canto altíssimo tem função reprodutiva: o macho anuncia presença e qualidade para as fêmeas. Mas pesquisas com o grupo mostram um compromisso físico: quanto mais alto o canto, mais curto ele tende a ser. Há um teto energético que o animal não ultrapassa.
O caso mais estudado é o da araponga-da-amazônia (Procnias albus), documentada por Jeffrey Podos e Mario Cohn-Haft atingindo cerca de 125 decibéis — até então o canto mais alto já medido em ave. A espécie brasileira agora em destaque, a araponga-de-garganta-nua (Procnias nudicollis), é sua parente próxima e ocorre na Mata Atlântica.
Duas aves, dois ambientes
| Espécie | Onde vive | Marca do canto |
|---|---|---|
| Araponga-de-garganta-nua Procnias nudicollis |
Mata Atlântica, das matas litorâneas da Bahia e de Alagoas ao Rio Grande do Sul | Som metálico, tipo martelo em bigorna |
| Seriema Cariama cristata |
Campos e cerrado do Brasil central, também no interior paulista | Canto longo, audível a quilômetros |
← deslize a tabela para o lado para ver todas as colunas →
Por que isso interessa a quem faz estudo ambiental
Vocalização não é curiosidade: é método. Boa parte do levantamento de avifauna em campo se faz por identificação auditiva, porque muitas espécies são ouvidas com frequência muito maior do que vistas. Daí a importância de duas práticas:
- Pontos de escuta padronizados, com tempo e raio definidos, permitindo comparação entre campanhas.
- Monitoramento acústico passivo, com gravadores autônomos que registram por dias seguidos e capturam espécies de hábito crepuscular ou esquivo.
Há ainda o outro lado da moeda: o ruído antrópico. Obras, tráfego e maquinário mascaram justamente a faixa de frequência usada por muitas aves para se comunicar, com efeito documentado sobre ocupação de território e sucesso reprodutivo. É um impacto que raramente aparece nos estudos com o peso que tem.
A araponga-de-garganta-nua, aliás, é espécie que sofre pressão dupla — perda de hábitat na Mata Atlântica e captura para criadouros ilegais, atraída justamente pelo canto. Um bom levantamento de fauna precisa registrar não só quem está lá, mas o que está ameaçando quem está lá.
Precisa de levantamento de avifauna?
Fazemos pontos de escuta padronizados e monitoramento acústico, com registro comparável entre campanhas.
Fontes e referências
- G1 — Duas aves brasileiras estão entre as mais barulhentas do mundo, mostra estudoG1 Meio Ambiente
- WikiAves — Araponga (Procnias nudicollis) — ficha da espécieWikiAves
- WikiAves — Seriema (Cariama cristata) — ficha da espécieWikiAves
- Podos & Cohn-Haft — Extremely loud mating songs at close range in white bellbirds (Current Biology, 2019)Current Biology
- ICMBio — Avaliação do estado de conservação da avifauna brasileiraICMBio