Quando se fala em poluição do ar, a imagem que vem à cabeça costuma ser fumaça de escapamento ou chaminé. O ozônio troposférico não se parece com nada disso: ele é invisível, não sai de nenhuma chaminé e se forma no próprio ar, sob sol forte. É por isso que ele passa despercebido — e é por isso que uma análise divulgada nesta semana chamou atenção ao colocar o Rio de Janeiro entre as cidades mais afetadas do mundo pelo poluente em 2026.
Segundo o levantamento noticiado pelo G1, cerca de 40% da população mundial foi exposta a níveis muito altos do poluente ao longo do ano. Na América do Sul o quadro foi mais favorável: 81% ficaram nas faixas consideradas boas ou razoáveis — o que torna a posição do Rio ainda mais destoante do contexto regional.
O ozônio da estratosfera é a camada que nos protege da radiação ultravioleta — esse é bom e queremos preservar. O ozônio da troposfera, ao nível do chão, é poluente e irritante para as vias respiratórias. Mesmo gás, papéis opostos, dependendo da altitude.
Um poluente que ninguém emite
O ozônio troposférico é secundário: nenhuma fonte o lança diretamente no ar. Ele nasce de uma reação entre dois grupos de poluentes na presença de luz solar intensa:
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Óxidos de nitrogênio (NOx)
Vêm sobretudo da queima de combustível — frota veicular, geração térmica e processos industriais.
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Compostos orgânicos voláteis (COV)
Saem de combustíveis, solventes, tintas, desengraxantes e também de fontes naturais, como a própria vegetação.
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Radiação solar
É a energia que dispara a reação. Por isso as concentrações sobem no meio da tarde e nos dias quentes e sem vento.
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Formação a favor do vento
A reação leva horas. O pico costuma ocorrer longe da fonte — inclusive em áreas residenciais e rurais sem trânsito pesado.
Esse último ponto explica um desconforto comum: bairro tranquilo pode registrar mais ozônio que o centro congestionado. No centro, o excesso de óxido nítrico recém-emitido chega a consumir parte do ozônio formado. A pluma segue com o vento e amadurece adiante.
Calor, seca e fogo empurram o problema
Três fatores que vêm se intensificando agravam a formação de ozônio, e os três se reforçam mutuamente:
| Fator | Efeito sobre o ozônio | Quando pesa mais |
|---|---|---|
| Temperatura alta | Acelera as reações que formam o poluente | Ondas de calor |
| Ar parado | Impede a dispersão e concentra os precursores | Inversão térmica |
| Incêndios florestais | Injetam NOx e COV em grande volume | Estiagem |
| Radiação intensa | Fornece a energia da reação | Céu limpo, verão |
| Frota e indústria | Fornecem os precursores de base | Todo dia útil |
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Efeitos na saúde e na vegetação
O ozônio é um oxidante forte. Nas vias respiratórias provoca irritação, tosse, sensação de aperto no peito e queda de função pulmonar, com impacto maior sobre crianças, idosos, pessoas com asma ou DPOC e quem trabalha ao ar livre. Diferentemente da fumaça visível, não há cheiro nem cor que avisem.
Há ainda um efeito menos lembrado e economicamente relevante: o ozônio reduz a produtividade agrícola. Ele danifica tecidos foliares e compromete a fotossíntese, com perdas documentadas em culturas como soja, trigo e feijão. É um poluente urbano que cobra sua conta na lavoura.
Como o pico é vespertino, atividade física ao ar livre rende mais no começo da manhã. Em episódios agudos, grupos sensíveis devem reduzir esforço intenso a céu aberto — e acompanhar os boletins do órgão ambiental estadual, que divulgam o índice de qualidade do ar por estação de monitoramento.
O que isso significa para empresas
Para quem opera indústria, frota ou obra, o ozônio tem uma característica incômoda: ele não é medido na sua chaminé. O que se controla são os precursores — NOx e COV —, e é sobre eles que recaem as exigências de licenciamento e automonitoramento.
Na prática, isso aparece em três frentes do dia a dia técnico: inventário de emissões atmosféricas, substituição de solventes e tintas de alto teor de COV, e manutenção de frota e queimadores. É a mesma lógica de rastreabilidade que organiza um inventário de emissões — mudando o gás de interesse.
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Fontes e referências
- G1 — Rio está entre cidades mais afetadas por ozônio nocivo este anoG1 Meio Ambiente
- OMS — Diretrizes de qualidade do ar e efeitos do ozônio na saúdeOrganização Mundial da Saúde
- CETESB — Qualidade do ar: monitoramento, padrões e boletinsCETESB
- CONAMA — Resolução nº 491/2018 — padrões de qualidade do arCONAMA/MMA
- Ministério do Meio Ambiente — Gestão da qualidade do ar no BrasilMMA