Por décadas, pescadores e moradores do Pantanal contavam histórias sobre um veado de pelagem quase preta, avistado em raros flagrantes entre a vegetação densa das margens dos rios. A lenda do "veado preto" agora tem respaldo científico: pesquisadores da Onçafari, em parceria com a Embrapa Pantanal, publicaram o primeiro registro documentado de melanismo no cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) — o maior cervídeo da América do Sul.
O achado, divulgado em agosto de 2026 na revista científica Notes on South American Mammals, transforma uma lenda regional em dado de conservação, e chega acompanhado de um flagrante inédito: um vídeo do animal, gravado em vida livre no Pantanal sul-mato-grossense.
Da lenda à ciência: o primeiro registro
O marco histórico aconteceu em 26 de fevereiro de 2021, dentro do Refúgio Ecológico Caiman, uma reserva particular de cerca de 530 km² no município de Miranda (MS). Uma fêmea adulta de cervo-do-pantanal, com coloração excepcionalmente escura, foi avistada e fotografada pela equipe da Onçafari — o registro é assinado pela pesquisadora Taile E. S. Nascimento, autora também das imagens que viralizaram nas redes.
O artigo científico, intitulado "First ever records of melanism in Marsh deer Blastocerus dichotomus", tem como autores Diogo L. L. D. Santana, Carlos E. Fragoso, Marcos R. M. Brito, Taile E. S. Nascimento e Daniel A. da Silveira Filho (todos da Onçafari), além de Walfrido M. Tomas, pesquisador da Embrapa Pantanal em Corumbá (MS).
O que é o melanismo e por que ele acontece
O melanismo é uma condição genética que causa superprodução de melanina, resultando em uma coloração castanho-escura que se aproxima do preto — o oposto do albinismo. Não se trata de uma nova espécie nem de uma subespécie: é uma variação individual dentro da própria Blastocerus dichotomus, cuja pelagem típica é castanho-avermelhada.
Esse tipo de mutação já é conhecido em outros mamíferos (como onças-pintadas e jaguatiricas, cujos indivíduos melânicos são popularmente chamados de "panteras negras"), mas nunca havia sido documentado cientificamente em cervos-do-pantanal — daí a relevância do registro de 2021 ter levado cinco anos para virar publicação: os pesquisadores buscavam confirmar que o padrão não era um caso isolado.
Não é só no Pantanal: registros também no Cerrado
O mesmo estudo relata que, entre 2025 e 2026, ao menos dois machos melânicos foram flagrados por armadilhas fotográficas no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no bioma Cerrado — divisa entre Minas Gerais e Bahia. Nessa população, os indivíduos de pelagem escura representaram 9,7% dos registros independentes (3 de 31), uma proporção que chamou atenção dos cientistas.
Os autores sugerem que deriva genética, isolamento e endogamia — fenômenos comuns em populações fragmentadas por perda de habitat — podem favorecer a expressão do melanismo. Em outras palavras: quanto mais isolada e restrita geneticamente uma população, maior a chance de mutações recessivas como essa se tornarem visíveis.
Por que documentar isso importa para a conservação
O cervo-do-pantanal é classificado como espécie vulnerável e funciona como um verdadeiro indicador da saúde das áreas úmidas onde vive — sua presença (e sua variabilidade genética) reflete diretamente a qualidade e a conectividade dos habitats de várzea. Um registro como este só foi possível graças a décadas de monitoramento contínuo: quatro décadas de observação no Pantanal sem nenhum indivíduo melânico documentado, até o flagrante de 2021.
É exatamente esse tipo de série histórica — construída com metodologia, constância e rigor técnico — que transforma um "flagrante" em dado científico com peso para políticas de conservação, planos de manejo e estudos de impacto ambiental.
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Fontes e referências
- Santana, D. L. L. D.; Fragoso, C. E.; Brito, M. R. M.; Nascimento, T. E. S.; Silveira Filho, D. A.; Tomas, W. M. — "First ever records of melanism in Marsh deer Blastocerus dichotomus" Notes on South American Mammals, 2026
- G1 Mato Grosso do Sul — "Veado preto é registrado pela primeira vez no Pantanal; veja flagra"Globo · 25 ago. 2026
- G1 Mato Grosso do Sul — "Inédito: veado preto é visto pela primeira vez no Pantanal" (vídeo)Globo
- Campo Grande News — "Descoberto no Pantanal de MS, veado preto deixa de ser lenda para a ciência"Campo Grande News
- Foto de capa/flagrante original: Taile Emanuele / Onçafari crédito editorial