Um emaranhado de sucuris entrelaçadas na superfície de um rio de Mato Grosso do Sul assustou pescadores e turistas em setembro de 2026. A cena, registrada pelo guia Antônio Marcos da Silva Oliveira — o Mazafishing — durante uma pescaria na região de Rio Brilhante, viralizou com uma pergunta recorrente: as cobras estavam brigando, atacando alguém ou se alimentando?
Nenhuma das três. O que as imagens mostram é um bolo reprodutivo, um comportamento natural e bem documentado da maior serpente do continente.
O que é o "bolo de sucuris"
O bolo se forma quando uma única fêmea atrai vários machos ao mesmo tempo. Eles se enrolam ao redor dela e permanecem assim por horas ou até dias, competindo pela oportunidade de reprodução. Em geral a fêmea é o maior animal do grupo — e, justamente por isso, sustenta o peso de todos os pretendentes.
Esse padrão tem nome na biologia: poliandria, quando uma fêmea acasala com mais de um macho. Nas sucuris, a disputa não costuma ser violenta; é mais um teste de resistência e persistência do que uma briga.
Feromônios: por que tantos machos chegam juntos
No período reprodutivo, a fêmea libera feromônios — sinais químicos que os machos detectam à distância e seguem até encontrá-la. Como a janela reprodutiva é curta, vários chegam quase simultaneamente, o que explica o aglomerado.
Segundo o biólogo Henrique Abrahão, ouvido pelo g1, o desfecho não é decidido pela força: "é a fêmea que decide com qual macho vai acasalar".
Quem é o Biólogo Henrique
O especialista ouvido na reportagem é Henrique Abrahão Charles — conhecido nas redes como Biólogo Henrique, o Biólogo das Cobras. Ele é uma das principais referências brasileiras em divulgação científica sobre serpentes, e a explicação dele sobre o bolo reprodutivo é um bom exemplo do trabalho que desenvolve: traduzir comportamento animal para o público leigo e desarmar o pânico que costuma cercar esses encontros.
Foto: acervo/divulgação
Henrique Abrahão Charles
Biólogo formado pela UERJ, com mestrado em Biologia Animal pela UFRRJ. Atua como professor, analista ambiental, jornalista e divulgador científico, com trabalho no Parque Natural Municipal da Restinga do Barreto, em Macaé (RJ).
Sua especialidade de pesquisa é o comportamento predatório de serpentes da família Boidae — o grupo das jiboias, salamantas e sucuris —, justamente o tema por trás do flagrante de Mato Grosso do Sul.
Nas plataformas digitais, mantém um dos maiores acervos em língua portuguesa sobre ofidiofauna e herpetofauna, com mais de 300 mil inscritos no YouTube e dezenas de milhões de visualizações. O foco do conteúdo é desmistificar o medo de serpentes e animais peçonhentos, explicar o comportamento da fauna silvestre e combater a desinformação — uma frente que dialoga diretamente com o trabalho de educação ambiental que a BioEmerge leva a empresas, escolas e comunidades rurais.
Fêmeas gigantes — e o canibalismo ocasional
A sucuri-verde (Eunectes murinus) apresenta dimorfismo sexual acentuado: as fêmeas chegam a ser praticamente o dobro do tamanho dos machos, podendo ultrapassar 5 metros e 200 quilos nos maiores registros. É a serpente mais pesada do mundo.
Esse desequilíbrio de tamanho ajuda a entender um detalhe que costuma chocar: a fêmea pode se alimentar de um dos machos ao final do acasalamento. O comportamento é associado à demanda energética da gestação — período em que ela passa meses sem caçar, dependendo das próprias reservas.
Sucuri é perigosa para pessoas?
A sucuri não é peçonhenta: não possui veneno nem presas inoculadoras. Ela mata por constrição, enrolando-se na presa. Ataques a seres humanos são raríssimos e, em geral, associados a tentativas de manuseio, provocação ou captura.
Diante de um bolo reprodutivo, a recomendação técnica é simples:
- Mantenha distância e não tente separar, tocar ou espantar os animais.
- Não jogue objetos nem use o barco para aproximar-se — estresse pode dispersar o grupo e interromper a reprodução.
- Registre de longe. O evento é sazonal e de alto valor para monitoramento de fauna.
- Se houver risco real a pessoas ou ao animal, acione a Polícia Militar Ambiental ou o órgão ambiental local.
Por que isso interessa a quem trabalha com meio ambiente
Episódios como esse são mais do que curiosidade. A ocorrência de bolos reprodutivos indica populações de sucuri estabelecidas e ambientes ripários preservados — a espécie depende de rios, lagoas e áreas alagáveis em bom estado de conservação. Onde a mata ciliar desaparece, a espécie também desaparece.
Para empreendimentos que operam perto de corpos d’água, esse tipo de registro entra diretamente nos levantamentos de fauna, nos programas de monitoramento e nos protocolos de resgate e afugentamento exigidos em licenciamento. Saber reconhecer um comportamento reprodutivo — e não confundi-lo com risco — evita intervenções desnecessárias e, não raro, ilegais.
Na BioEmerge, esse conhecimento também sustenta nossas capacitações de convívio com a fauna silvestre para equipes de campo, agroindústrias e comunidades rurais — incluindo a distinção prática entre espécies peçonhentas e não peçonhentas.
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Estruturamos monitoramento faunístico e treinamentos de convívio seguro com a fauna silvestre.
Fontes e referências
- g1 Mato Grosso do Sul — "Biólogo explica por que sucuris formam 'bolo' com vários machos durante acasalamento"Globo · 15 set. 2026
- g1 Mato Grosso do Sul — "Bolo reprodutivo de sucuris assusta turistas durante pesca em rio de MS" (vídeo)Globo
- Registro original (foto e vídeo): Antônio Marcos da Silva Oliveira — Mazafishing crédito editorial
- Declarações técnicas: biólogo Henrique Abrahão Charles, em entrevista ao g1 entrevista
- Biólogo Henrique — perfil profissional e formação · canal no YouTubefonte especialista
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